sábado, 11 de fevereiro de 2017

J. D. Salinger, Franny e Zooey


Franny e Zooey foi originalmente publicado como duas novelas separadas, Franny (1955) e Zooey (1957), na revista New Yorker. Em 1961, são publicadas em conjunto e como um único romance composto por duas partes. [Para uma rápida informação sobre a obra ver aquiaqui e aqui.] É controverso o enfoque dado por Salinger à obra. Múltiplas leituras surgiram, umas acentuando mais o carácter espiritual e religioso, uma espécie de iniciação de Franny à sabedoria, outras acentuando a dimensão de crítica social, um questionamento dos valores hipócritas presentes no mundo cultural norte-americano, tanto na universidade como no mundo do espectáculo, outras ainda sublinhando no texto a projecção das preocupações pessoais do autor.

Qualquer leitor de Franny e Zooey corroborará a presença dos temas sociais e religiosos, pois a referência a eles é constante em toda a obra. A questão, contudo, é a da sua função. Serão as questões religiosas e sociais centrais e temáticas ou apenas instrumentais? Tomadas em si mesmas e na economia do romance, elas são claramente instrumentais. São mobilizadas para contextualizar e articular aquilo que parece ser o tema central da obra, a reconciliação consigo através da aceitação do outro na sua inteira e completa alteridade.

 O encontro de Franny Glass, num restaurante da moda, com o namorado, Lane Coutell - a primeira parte da narrativa ou a primeira novela, na edição do New Yorker - tem como função evidenciar as causas de um sentimento de desagrado com os outros, sintoma de uma não conciliação de Franny consigo mesma. Os professores da universidade, com o seu pedantismo, são a expressão da inautenticidade e do mais puro e refinado egoísmo. Em todas as suas palavras e pensamentos, segundo Franny, ressuma o culto de si. É esta sensação de uma comunicação inautêntica e estratégica que, devido à educação recebida, como se verá na segunda parte, a conduz a uma estranha prática, a Oração de Jesus, inspirada pelo Caminho de um peregrino, uma obra russa do século XIX que narra a viagem de um peregrino, pela Rússia, enquanto praticava a oração. Esta, tal como o peregrino a aprendeu de um staretz, consiste em dizer ininterruptamente "Jesus Cristo Nosso Senhor, tende piedade de nós" até que a frase tome conta de todo o ser e se confunda com a própria respiração. A narrativa de Franny contrapõe a tensão em que esta se encontra com a posição do namorado, alguém que se prepara para ser um universitário tão inautêntico e fechado sobre si como os professores de Franny Glass, completamente concentrado na refeição, enquanto ela lhe ia falando sobre o livro do peregrino russo. O desenlace acontece com o desmaio de Franny e o subsequente colapso nervoso.

A segunda parte da narrativa passa-se em casa dos Glass, para onde Franny voltou à beira da depressão. A forma como Salinger, através dos diálogos entre Zooey e Bessie, respectivamente irmão e mãe de Franny, e entre Zooey e Franny, retrata o ambiente familiar dos Glass merece a maior das atenções. Esses diálogos acabam por fazer jus à própria ambiguidade do nome de família. Glass, ao mesmo tempo vidro e espelho, adequa-se muito bem à falsa transparência dos seus elementos, os quais acabam por ser imagens especulares uns dos outros. É ao manejar com rigorosa mestria a relação de transparência e de espelhamento entre Zooey e Franny, bem como de ambos com outros irmãos, que Salinger conduz Franny à reconciliação consigo, através da aceitação dos outros nas suas particularidades e idiossincrasias, irritantes e falsas que sejam.

As últimas páginas (173-175), de facto, fazem lembrar as histórias Zen, e é através de uma estratégia semelhante que Zooey conduz a irmã à pacificação, como as últimas palavras da obra mostram: Durante uns minutos, antes de cair num sono profundo e plácido, (Franny) ficou imóvel, a sorrir para o tecto (p. 175). Este conjunto de sintomas - sono profundo e plácido, a imobilidade e o sorriso - tornam clara a auto-reconciliação de Franny. Para o conseguir, Zooey lembra um episódio da sua participação no concurso radiofónico Criança Sábia. Um dia, recusou-se a engraxar os sapatos. Contrariado pelo irmão mais velho, Seymour, Zooey argumentou que os espectadores no estúdio eram uns cretinos e, além do mais, ninguém lhe via os sapatos. Mas Seymour foi contundente: "Replicou-me  que os engraxasse na mesma. Que os engraxasse para a Senhora Gorda. Não sabia de que raio é que ele estava a falar, mas pôs aquela cara típica dele e eu obedeci. Nunca me chegou a dizer quem era a Senhora Gorda, mas daí em diante passei a engraxar os sapatos sempre que ia à rádio..." (p. 173).

É na hermenêutica que Zooey faz da Senhora Gorda que ele conduz a irmã a si mesma. A Senhora Gorda são todos aqueles professores pretensiosos e pedantes, são todos os outros que, na sua alteridade, nos irritam com o alardear do seu pretenso egoísmo: "Não há lá ninguém que não seja a Senhora Gorda de Seymour. E isso inclui o teu professor Tupper, companheira. E todas as dúzias de malfadados primos que tenha. Não há ninguém em lado nenhum que não seja a Senhora Gorda de Seymour. Não sabes isso? Ainda não sabes esse terrível segredo? E não sabes, ouve-me bem, não sabes quem é realmente a Senhora Gorda?... Ah, companheira. Ah, companheira. É o Próprio Cristo. O Próprio Cristo, companheira." (p. 174)


A revelação do outro como divino, através de um jogo infantil, que na sua aparente puerilidade lembra o Zen, tem o condão do conduzir Franny a si mesma. A questão social ou mesmo a religiosa, assim, estão longe de ser o cerne da narrativa. O que se joga é o problema da identidade de si, a resposta à questão: quem sou eu? Em Franny e Zooey a descoberta da identidade própria passa pela mediação do outro. Este outro surge de forma ambígua, pois tanto é um outro familiar, o irmão Zooey que emerge como mestre iniciador e revelador do segredo, como um outro radical na sua alteridade, essa Senhora Gorda que não é mais do que o próprio Cristo, ou dito de outra maneira, a própria humanidade. Essa identificação de si na relação com as alteridades passa por um processo de reconciliação consigo mesma, que é ao mesmo tempo um processo de reconhecimento de si e dos outros, um processo iniciático que, ao identificar o indivíduo, o retira do encerramento em si e abre-o para o mistério da presença dos outros na nossa vida.