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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, A corça prisioneira


Sexto e último romance da Crónica da Vida Lisboeta, A Corça Prisioneira, de Joaquim de Paço de Arcos, explora o território ambíguo que, mais do que separar, une traição e fidelidade. A temática da traição amorosa vem sendo explorada desde o primeiro romance do ciclo. Em todos eles, diversas personagens femininas são dilaceradas pelo conflito entre a fidelidade à convenção, representada pelo casamento enquanto contrato e instituição, ou a fidelidade a si mesmas, à inclinação provocada pelas afecções da alma e pelos desejos do corpo. Neste último romance, o jogo entre fidelidade e traição coloca-se, todavia, a vários níveis, indo muito para lá da questão amorosa e sexual, apesar de ambas constituírem os pólos de um eixo, em torno do qual roda, sem parar, a vida dos homens.

O tempo romanesco corresponde ao primeiro lustro da década de cinquenta do século XX. Estamos em plena Guerra Fria e vive-se a época em que o equipamento atómico dos arsenais militares se tornou decisivo na geoestratégia mundial. Portugal seria um exportador de urânio para as potências aliadas, mas a sua produção é também disputada pela União Soviética. Uma empresa fantasma, dirigida, através de testas-de-ferro, por personagens influentes na vida económica, tenta desviar parte de produção para os soviéticos. É nesta trama que um dos principais produtores nacionais, Fernando Malafaya, um grande proprietário, é apanhado, através das manobras do seu sogro, um burlão que, antes de ser descoberto, se tinha alcandorado dos lugares mais baixos de um banco ao topo da sua administração. Saído da prisão, trai a boa-fé do genro e causa-lhe, pela sua aliança com os empresários feitos com os soviéticos, uns percalços desagradáveis com a polícia política. Paço d’Arcos manifesta as frágeis fidelidades políticas dos homens de negócios, a sua duplicidade, marcada por uma adesão de superfície e uma fidelidade funda aos seus interesses privados.

É também o tema da fidelidade e da traição aquele que diz respeito a Alberto de Lemos. Este era um antigo amigo de Malafaya, quando ambos estudavam em Paris, antes da II Guerra Mundial e da ocupação alemã da capital francesa. Apesar de serem politicamente afastados – Malafaya era monárquico e Lemos, comunista – tinha nascido uma amizade que não teve continuidade em Lisboa. Alberto, um físico de prestígio, retornara a Portugal e, apesar das inclinações ideológicas de juventude, já esmorecidas, trabalhava na Comissão de Energia Nuclear. Três fidelidades disputavam a sua pessoa. A do regime, devido ao papel destacado que tinha num organismo científico tão sensível do ponto de vista político. A dos antigos camaradas do Partido Comunista, que tentavam explorar as suas antigas crenças, em proveito dos soviéticos. A da sua vocação de cientista, que era a única que, na verdade, o movia e determinava as suas opções. Se não foi fiel aos seus antigos camaradas, também não o era ao regime. E se com isso evitou a prisão, não pôde esquivar-se a uma expulsão do país.

Um encontro inesperado em Paris entre Malafaya e Lemos, no período do pós-guerra, conduz ao reatamento da velha amizade em Lisboa. E aqui entra de novo o tema da fidelidade e da traição, agora no campo do amor e da amizade. A mulher de Fernando Malafaya, Leonor, tinha sido explicanda de Alberto e entre eles teria ocorrido uma equívoca situação amorosa que ele tinha deixado cair aquando da prisão do pai de Leonor. Esta, porém, nunca o esquecera e o reencontro foi oportunidade para desenvolver uma paixão funesta. No centro do triângulo amoroso, estava Fernando Malafaya. Que tinha sido traído pelo sogro, e era agora traído pela mulher e pelo amigo de juventude. Com a descoberta da situação, porém, Malafaya mantém-se fiel ao seu compromisso com a religião. Não desfaz o casamento. 

Leonor é a corça prisioneira, que casa com Fernando quase como vingança contra a mãe deste, que, como madrinha a recebe em casa e a maltrata continuamente, após a queda e prisão do pai. A sua traição é o outro lado da fidelidade profunda ao seu desejo. Alberto é apenas fiel à sua vocação de cientista. Trai o amigo, a amante, os antigos camaradas e o próprio regime que o acolheu. Tudo isso era, na verdade, irrisório para ele. Fernando é traído três vezes, mas mantém-se fiel às suas convicções espirituais. O triângulo amoroso encarna três tipos de fidelidade. A fidelidade ao corpo e ao desejo, em Leonor, a fidelidade à vocação e à vontade, em Alberto, a fidelidade ao espírito e ao sentimento, em Fernando.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, Espelho de três faces


No quinto livro do ciclo Crónica da Vida Lisboeta, Espelho de Três Faces, Joaquim Paço d’Arcos faz uma surpreendente análise do homem técnico e do niilismo que ele traz consigo. No centro da intriga está o engenheiro Leonel Seabra, filho de um importante diplomata, que, ao enveredar pela engenharia, não segue as pisadas do pai, imbuído de uma larga cultura política. É apenas no quinto livro da Crónica que, entre a multiplicidade de personagens, emerge como figura principal um engenheiro comprometido com um projecto industrial. Em Ansiedade, segundo livro do ciclo, o estudante de engenharia Pedro Pinto era uma figura de alguma importância na trama romanesca, mas por motivos políticos, pela sua ligação a uma tentativa de revolta contra a ditadura.

Leonel Seabra é apresentado sob dois ângulos, o da vida amorosa e o da ocupação profissional. O talento de Paço d’Arcos reside no entrelaçamento dos fios provenientes de ambos para traçar o vazio que cresce na alma do homem da técnica. Esse vazio é prenunciado, logo no início do romance, pela informação de que a sua namorada, Maria Eduarda, morrera de acidente de viação, do qual ele fora o culpado. O romance é publicado em 1950, num tempo em que o automóvel era ainda, pelo menos num país periférico e atrasado como Portugal, o símbolo da revolução técnica e da segunda revolução industrial. É a sombra deste acidente que se vai projectar, de formas diferenciadas, no destino do engenheiro saído do Instituto Superior Técnico.

O romance tem um primeiro capítulo introdutório com cerca de 40 páginas, aos quais se seguem três partes. Todas elas remetem para uma mulher e para a ideia de representação: Maria do Céu – Esboço; Manuela – Retrato; Maria Antónia – Perfil. Todas estas mulheres se cruzam com o engenheiro Seabra. Maria do Céu, uma aristocrata, chegou a ser sua noiva. Manuela, rapariga umas vezes tida por conta outras tendo de trabalhar num prostíbulo elegante de Lisboa, foi sua amante antes e depois do possível casamento com Maria do Céu. Maria António, filha de um capitão monárquico preso como oposicionista, foi sua secretária e, desde os tempos de juventude, mantinha uma secreta paixão por Leonel. Em todos estes casos se reproduz, de forma simbólica, a situação originária. Em nenhum deles, o amor conduziu a um comprometimento. Na verdade, estas mulheres não eram mais do que representações (retratos, esboços, perfis) de alguém que se tinha transformado em nada.

Do ponto de vista profissional, o protagonista dirige um projecto de instalação de uma fábrica de adubos no país, empreendimento partilhado pelo Estado e por empresários privados. A acção está situada no início do Plano Marshall e caracteriza o processo de industrialização que esse plano produziu em Portugal. Leonel Seabra é o administrador delegado e todo o seu talento se centra nos aspectos técnicos e na criação da empresa. O problema surge quando é necessário,ultrapassar as preocupações técnicas e industriais do empreendimento e ser conivente com interesses financeiros que se movimentavam de forma não muito transparente à volta do projecto. Não seriam interesses ilegais, mas que eram de moralidade duvidosa. A sua recusa não o leva a enfrentar a situação, mas condu-lo ao pedido de demissão da empresa, a qual era o fim para que se tinha preparado desde o tempo de estudante universitário e que, na verdade, era o seu projecto existencial.

Uma vocação meramente técnica torna o homem incapaz de lidar com a complexidade tanto do desejo amoroso como com as teias ardilosas da vida social, com os seus interesses. Derrotado, ainda que por demissão, tanto no amor como na realização da sua vocação, Leonel Seabra foi desenhado, por Paço d’Arcos, como figuração do carácter niilista do homem técnico. A este falta-lhe uma outra cultura – presente na figura do pai – que lhe permita um compromisso real com a complexidade do mundo. A ausência dessa cultura conduz à demissão e à fuga ao compromisso. O acidente de automóvel na juventude, com a perda da mulher amada, é uma espécie de profecia trágica de um destino a que, o promissor e talentoso engenheiro, não pôde fugir. O seu talento técnico conduziu-o a lugar nenhum, assim como cada face do espelho lhe devolveu o vazio da sua personagem.

Joaquim Paço d'Arcos, Tons verdes em fundo escuro


Em Tons Verdes em Fundo Escuro (1946), quarto romance da Crónica da Vida Lisboeta, Joaquim Paço d’Arcos analisa dois mundos que têm origem fora do espaço social predominante neste ciclo romanesco, a aristocracia e a alta burguesia financeira, que dominavam a sociedade lisboeta dos anos quarenta do século passado. Com Helena Medeiros é retratado o mundo da pintura, da relação estética com a realidade. Com Moura Teles, o do advogado provinciano que chega a Lisboa para triunfar, jogando calculadamente cada uma das peças que a vida lhe coloca no tabuleiro. Obsequioso com os poderosos e frio e destituído de piedade ou princípios com os outros. A figura de Moura Teles – que num romance posterior chegará a ministro do governo de Salazar – é a imagem acabada, sem contemplações, daquilo a que, na nossa tradição literária, se dá o nome de videirinho.

Estes dois mundos cruzam-se através da sexualidade. Grande parte do romance está sob a égide da relação irregular entre Helena Medeiros e Moura Teles, que mantêm um caso amoroso. Essa situação, apesar de nenhum ser casado, no ambiente fechado, provinciano e marcadamente machista, de Lisboa é uma sombra que se derrama sobre a pintora, embora seja, para Moura Teles, um motivo de promoção como homem experimentado e sexualmente vivido. A situação de Helena Medeiros é bastante frágil. A mãe – uma espécie de voz da opinião pública – não lhe perdoa a ousadia e, ressentida pela situação familiar, onde o marido, um aventureiro colonial, sempre deu mais atenção, ainda que longínqua, à filha do que a si mesma, não perde ocasião para lhe dar uma leitura negra do seu estado. Para a mãe, a situação de Helena não é a de uma artista a quem se permite aventuras em nome do sublimidade da arte, mas a de uma mulher por conta do advogado. A obscuridade que paira sobre a vida da pintora é reforçada por esta ao ocultar a situação ao pai.

O romance começa com uma intervenção de Moura Teles num negócio em que está envolvida a sociedade colonial do pai de Helena, embora na altura ele não o saiba. Ele manobra a situação, enquanto advogado, de forma a que a empresa perca o que lhe resta e seja obrigada a vender os terrenos, em África, para um consórcio de que ele faz parte. Um golpe duro sem qualquer contemplação pelos perdedores, aliás seus clientes. Esta entrada em cena de Moura Teles simboliza todo o seu comportamento, nas diversas esferas de acção. Conhecedor da lei, sabendo explorar os pontos obscuros e as fragilidades humanas, o advogado provinciano insinua-se assim tanto entre as pessoas de dinheiro, como o Banqueiro Costa Vidal, como entre a aristocracia decadente, sem poder nem dinheiro, mas com nome e passado, então bens ainda de grande valor no mercado social português.

A relação entre a pintora – que tinha estado em Paris e que voltara a Portugal com a invasão alemã – e o advogado resulta de um acaso e não de uma atracção amorosa entre ambos. Ela deixa-se levar por uma certa inocência e ele pelo desejo e pelo cálculo. Na verdade, no ambiente intelectual de Lisboa, Helena Medeiros atraía os homens e tê-la como amante era motivo de valorização nesse tráfico de comparações, que os homens são incapazes de deixar de fazer para se assegurarem da respectiva virilidade. O resultado foi aquele que era expectável. Moura Teles nunca deixou de manobrar para obter um casamento que lhe permitisse outros voos. E quando descobre a sua oportunidade junto de uma jovem aristocrata desiludida no amor, não hesita em jogar a sua sorte. O videirinho provinciano, bem relacionado com o mundo do dinheiro, é um óptimo partido para o pai arruinado da sua futura mulher. O casamento de Moura Teles é um belo contrato comercial. O sogro ganha a possibilidade de resolver os seus problemas financeiros e ele adquire um estatuto social que não estaria, de outra forma, ao seu alcance.

Helena depois de uma exposição com resultados frustrantes, de um conflito com o pai e cansada dos limites da vida lisboeta, acaba por abandonar o país para voltar a Paris, já libertada da presença alemã. Como noutros romances do ciclo, o autor interroga-se sobre a questão da inocência e da culpa e retrata, com precisão, a falta de escrúpulos, a habilidade rasteira, a falta de nobreza, que se tornaram a condição necessária para o triunfo no país cinzento, paroquial que Portugal então era. A grande personagem do romance, delineada com precisão e brilho, é Moura Teles, um exemplo claro daqueles que tratam os seus semelhantes não como seres dignos de respeito, mas como meros objectos ao serviço dos seus interesses. Através do advogado provinciano e videirinho é a sociedade de então que Paço d’Arcos torna patente ao leitor.

Joaquim Paço d'Arcos, O caminho da culpa


Se em Ana Paula, primeiro romance do ciclo Crónica da Vida Lisboeta, Joaquim Paço d’Arcos retrata a resistência da moral apolínea, encarnada pela protagonista, aos avanços de Eros, em O Caminho da Culpa, é o Eros vitorioso que se manifesta em toda a sua amplitude e em todas as suas consequências. A fortaleza das convenções sociais, da moral comum e da tradição, as máscaras sob as quais a moral apolínea impõe o seu jugo aos impulsos eróticos, mostra-se impotente para conter o fluxo do desejo que essa mesma moral visa domesticar e ordenar.

Seria uma leitura pobre ver no romance a mera tematização do adultério e do suicídio, tomados na sua dimensão meramente moral e social. O que nos é mostrado é a tensão entre o desejo e a convenção, é a luta entre o ser e o dever. Eros desafia não apenas as convenções sociais mas também, e fundamentalmente, as convenções pessoais e psicológicas, para revelar a realidade crua. O tempo da narrativa é o dos anos quarenta do século passado. A obra foi publicada em 1944 e nota-se nela a percepção de que a guerra, que então grassava pelo mundo, estava a deixar de pender para o lado alemão. Este tempo de convulsão exterior é rebatido numa Lisboa em paz, onde se pode especular sobre o desígnio dos deuses da vitória, sem que os portugueses tenham de se confrontar com a dura realidade da violência e da destruição.

É nesta ambiência morna que os negócios prosperam e as ambições humanas, das classes altas de Lisboa, encontram terreno para a sua concretização. É aí que se movem, como se não lhe pertencessem, o médico Paulo de Morais e a aristocrata Eugénia de Macedo. O médico – que seria, do ponto de vista ideológico, um comunista, embora não praticante – tinha, devido à sua reputação, por clientela os sectores mais elevados da sociedade lisboeta e era entre estes estratos sociais que se movia. Íntegro como pessoa e com um casamento ordenado, fecundo e feliz. Eugénia dedicava-se a uma vaga organização de caridade e mantinha um casamento convencional, do qual não havia filhos, mas que ela nunca pensara pôr em causa ou encontrar, para a monotonia da vida conjugal, uma compensação numa aventura extramatrimonial.

É a aproximação dos dois, por motivo de doença do pai dela, que desencadeia o violento ataque de Eros. Mais do que o adultério e a destruição dos casamentos, o que está em causa é a tensão que o desejo provoca em dois seres tão racionais e tão submetidos a um modo de vida apolíneo, com a submissão às regras que a razão ordena na vida social e pessoal. Não é a instituição social do casamento que o impetuoso Eros atinge, mas a pessoa de cada um dos amantes, a vida dela e a consciência dele.

Como é norma na tradição ocidental, Eros está ligado aos impulsos de vida e de morte e são esses impulsos que tomam corpo em Eugénia. Ela que sempre desejara um filho, estava agora grávida do médico. Por outro lado, os impulsos de morte manifestam-se no surgimento de um cancro no seio. O ponto central do romance joga-se aqui. Paulo de Morais sabe que a doença de Eugénia é mortal, não tendo sido ela, por culpa própria, operada a tempo, sabe que o seu amor não tem futuro e perante a tragédia da mulher amada e a vida que tem pela frente, opta por não abalar nenhum dos casamentos. Apolo estendeu-lhe a mão e ter-lhe-á parecido uma bravata inútil romper as aparências e as convenções sociais. Do outro lado, porém, Eugénia está dilacerada entre a morte que a chama e a vida de um filho – o qual se nascesse abalaria o seu casamento – que tinha surgido no tempo e no espaço errados. O suicídio é a solução do dilema que, literalmente, lhe rasgava a carne.

O romance, na verdade, é uma reencarnação da velha tragédia grega, marcada pela tensão entre o apolíneo e o dionisíaco, entre as forças da ordem e as forças do caos. Paulo de Morais e Eugénia de Macedo, ao libertarem-se do convencionalismo das suas vidas, que fazia deles marionetas dos respectivos papéis sociais, submeteram-se a um senhor mais poderoso e mais impiedoso. As forças dionisíacas levaram para a morte a parte mais fraca, Maria Eugénia, e, apesar do recurso à razão apolínea, abriram uma brecha na consciência do médico perante a hesitação entre o amor sem destino e a convenção da vida respeitável de um médico das classes altas, preocupado com o destino dos desvalidos deste mundo. Com o suicídio dela e a hesitação dele, Eros tornou patente a crueza da realidade e, como é normal, Diónisos e Apolo obtiveram um empate.

Joaquim Paço d'Arcos, Ansiedade


O romance Ansiedade (1940) é o segundo da Crónica da Vida Lisboeta, um ciclo de composto por seis romances que Joaquim Paço d’Arcos dedica à vida na capital portuguesa, a uma certa Lisboa habitada pela alta burguesia em ascensão e pelo que resta de uma aristocracia decadente, nostálgica de uma monarquia que nem a mão poderosa de um ditador, talvez monárquico, teve condições para a trazer à vida. O título é já revelador da orientação que o autor imprimiu à obra. Um estado de perturbação inscreve-se na acção das personagens pela desadequação entre o mundo ideal, que alimenta as ilusões dos seres humanos, e a realidade crua.

A intriga tem dois focos que se cruzam na personagem de António Coutinho, Toy. Um de natureza política e outro de natureza sentimental. Ao longe, digamos assim, percebe-se uma época de grande agitação política a nível internacional. A guerra civil espanhola e a ascensão do nazismo e a subsequente deriva que levará à segunda grande guerra. No entanto, todos estes sobressaltos tocam apenas ao de leve a existência que as camadas sociais mais altas levam em Lisboa. A vida compõe-se de negócios, alpinismo social e traições amorosas.

O detonador da narrativa é o retorno à metrópole, para usar uma expressão da época, do jovem aristocrata Toy e de um velho republicano, Ildefonso Barradas, um homem do reviralho, cuja coroa de glória fora o seu lugar de vereador na câmara de Lisboa, antes do golpe de 28 de Maio. Apesar das diferenças sociais e de geração, o africanismo uniu-os de algum modo. Na verdade, eram dois exilados. Um, o republicano, exilado político, o outro, o aristocrata, um exilado sentimental. O pai mandara-o para África como forma de o afastar da sua prima Pequenu, com a qual mantinha um namoro equívoco e intenso.

Quando chegam a Lisboa, nem a República velha tinha sido restaurada, para desgosto de Barradas, nem a Pequenu se tinha mantido fiel ao primeiro amor, tendo casado com Carlos Lobo de Castro. Contudo, Barradas e Toy mantiveram-se fiéis às suas idealizações juvenis. O primeiro, animado pelo futuro genro, um engenheiro comunista, e apesar de discordar das ideias redentoras deste, compromete-se na luta contra o regime. Toy, embora não compreenda o casamento de Pequenu, continua a idealizá-la, não sabendo sequer que ela se tornara, com a repugnante e interessada cumplicidade do marido, amante de um dos principais banqueiros do país.

Barradas tenta captar Toy para as suas operações políticas, mas este, marcado por um idealismo de sinal contrário, decide-se, movido pela casta a que pertence, pela fidelidade ao regime e torna-se miliciano, uma figuração dos legionários, uma das organizações para-fascistas do regime de Salazar. Isso, todavia, não afastou os dois homens. Respeitavam-se apesar das diferenças. A ansiedade, que vive da iminência do terrível e que o anuncia, encontra o seu caminho perturbante não apenas na confissão de Pequenu a Toy, onde este é obrigado a tomar conhecimento da conduta da mulher idealizada, como no confronto político-militar entre uma coligação de oposicionistas, onde se encontra Barradas, e as forças leais ao regime, nas quais se integra Toy. O acaso do conflito militar leva a que, sem o saber embora o descubra logo a seguir, Ildefonso Barradas abata Toy.

Há, no romance de Paço d’Arcos, uma crítica implacável dos idealismos. Sejam estes amorosos, sejam políticos. O mundo – neste caso Lisboa dos finais dos anos 30 do século passado – não é um lugar para os puros. A pureza do amor de Toy naufraga na realidade da vida amorosa da mulher que ele idealizou e que, pelas circunstâncias da vida, não corresponde ao arquétipo nascido na adolescência. O idealismo político de Barradas é confrontado pela derrota da insurreição e no peso de ter morto, em combate, o seu jovem amigo. O próprio idealismo político de Toy é compensado com a morte. Nessa Lisboa, sob o olhar atento do ditador (nunca mencionado), a vida é feita de negócios obscuros, do esbracejar dos videirinhos e de traições quotidianas. A razão de Estado (do poder dominante) é mais forte que o romantismo político. A razão do dinheiro e do poder social derruba sentimentos e compra sexo e consciências. Ali, naquela Lisboa, não há lugar para ilusões.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula - Perfil duma Lisboeta


Ana Paula, Perfil duma Lisboeta é o primeiro romance de um ciclo de seis intitulado Crónica da Vida Lisboeta, da autoria de Joaquim Paço d’Arcos. Publicado em 1938, inscreve-se nos primeiros anos da ditadura do Estado Novo e traça um retrato da vida das classes altas lisboetas. Mostra uma aristocracia em declínio e que, apesar do seu amor monárquico, não perde tempo em procurar um lugar no regime republicano que lhe permita conduzir a vida com a antiga abastança. A obra mostra também a natureza de uma alta burguesia financeira, videirinha, oportunista e implacável.

Este primeiro romance do ciclo tem como tema fundamental a honra, esse valor aristocrático por excelência. Não se trata, porém, da honra do homem aristocrata, mas da honra entendida como persistência da mulher no caminho da virtude e da fidelidade, mesmo quando as circunstâncias, as difíceis provações e as inclinações do coração tornam propício o adultério. Não deixa de ser sintomático que, no dealbar do Estado Novo, a última defensora da virtude aristocrática seja uma mulher e que essa virtude tenha perdido todo o sentido político, reduzindo-se a uma mera questão de alcova, a resistência à tentação da infidelidade sexual.

O drama centra-se no casamento de Ana Paula, filha do Conde da Balsa, uma velhíssima família da nobreza nacional, com um oficial arrivista, herói do Estado Novo, boémio, mulherengo e viciado no jogo. As virtudes másculas de Jorge de Melo seduzem Ana Paula. O casamento para ele é uma porta para um mundo onde nunca poderia entrar e para ela o caminho para uma vida infernal. A boémia, as amantes e, principalmente, o jogo levam a que o oficial, no âmbito de uns negócios militares, faça, para alimentar a vida viciosa, uns desfalques. É detido e julgado, mas salvo por um amigo, advogado Eduardo Reis, o qual através duma retórica exímia consegue um triunfo em pleno tribunal, ilibando o amigo.

O problema é que, durante a detenção do militar e no decurso do processo judicial, o advogado e Ana Paula apaixonam-se. A narrativa mostra-nos então a luta destes dois protagonistas para resistirem à tentação. O advogado, à tentação de abandonar Jorge de Melo, o amigo, à sua sorte, a um destino odioso. Ana Paula, à tentação de se entregar ao advogado. Se a resistência à tentação em Eduardo Reis se deve acima de tudo à consideração de si mesmo e ao medo de surgir com uma imagem degradada aos olhos do objecto do seu amor, em Ana Paula assenta nas convicções religiosas e no sentido da honorabilidade da família e da casta.

Neste triângulo não consumado, Paço d’Arcos acaba por projectar, não sem ironia e algum distanciamento crítico, uma imagem estereotipada da relação entre as classes sociais e a moral. Jorge de Melo, oriundo de classes baixas, é um modelo de leviandade e corrupção moral, incapaz de contenção e de sentido da sua medida. Eduardo Reis simboliza uma moral individualista e burguesa escudada numa forte cultura jurídica e numa tolerância tácita que lhe permite manter-se, com glória, no âmbito dos seus interesses. Ana Paula é a imagem dos velhos valores aristocráticos em rápido processo de dissolução.

Apesar da banalidade da história, contada na terceira pessoa por um narrador omnisciente, o leitor pode fazer uma visita – quase como se o romance fosse um filme – a uma época de Lisboa e do país e aos valores que então guiavam os estratos sociais retratados. O facto do autor se mover nesses meios contribui para que o leitor suspenda a descrença e contemple um mundo feito de interesses obscuros, forças que se movimentam em silêncio, corrupção económica e moral, homens poderosos com as suas garçonnières, raparigas pobres mantidas por senhores ricos. Um mundo onde a influência da religião é, apesar do peso da Igreja no país ser enorme, praticamente nula e onde a virtude moral é compensada com a infelicidade e a vergonha.