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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lev Tolstói, A Morte de Ivan Illitch


Podemos ler um livro de múltiplas maneiras. Uma delas é mobilizar aquilo que se sabe da psicologia e dos traços ideológicos do autor para dar um sentido à leitura, para legitimar essa leitura, dando-lhe uma certa tonalidade verídica. Entre os múltiplos pecados que cobrem a minha alma está o de nunca me interessar pela biografia dos autores. Quando leio as suas obras leio apenas as suas obras e não quero saber da sua vida. Sou um leitor egoísta, pois procuro numa obra aquilo que ela me faz pensar e não a projecção mimética de quem a escreveu, até porque não acredito que a arte seja projecção mimética seja do que e de quem for. Eu não quero encontrar o autor, quero descobrir-me a mim através da provocação que uma obra me lança. Descobrir-me significa não tanto construir a minha pretensa identidade – coisa que duvido que tenha – mas destruir as construções ilusórios que faço dela.

Vladimir Nabukov, alguém com uma autoridade literária infinitamente maior que a minha, diz que a A Morte de Ivan Illitch trata "não da Morte de Ivan mas da Vida de Ivan." E este dizer está escorado naquilo que Nabukov sabe ser o pensamento de Tolstói, a preocupação deste com o destino do homem espiritual. Diz Nabukov:  «De acordo com  Tolstói , o homem mortal, o homem pessoal, o homem individual, o homem físico, vai pelo seu caminho físico para o caixote do lixo da natureza; de acordo com Tolstói, o homem espiritual regressa à região sem nuvens do amor divino universal, um lugar de felicidade neutra tão caro aos místicos orientais.» Será assim, mas nada disso me ajuda a compreender a novela em causa.

Qual o papel da morte em A Morte de Ivan Illitch? Obviamente que a morte, através da sua delegada a doença, tem a função de ir destruindo o corpo físico de Ivan Illitch. A minha leitura, porém, situa-se numa outra perspectiva. A morte tem, na novela, a dupla função de separação e de individuação. Quando ela surge no horizonte da existência de Ivan Illitch gera um processo de separação com a realidade habitual, com a vida familiar, as relações de amizade e os compromissos de trabalho. Esta separação que, num processo relativamente longo e marcado pela agonia final, a morte opera não significa uma etapa de indiferenciação e de dissolução dos limites do indivíduo.

Pelo contrário, Tolstói, ao separar da vida habitual a morte (deveria escrever a Morte), vai constituir Ivan Illitch num indivíduo. A morte é aquilo a que os filósofos medievais – não se referindo a ela – chamam princípio de individuação. O que se assiste, a partir do momento em que Ivan Illitch suspeita que está condenado, é à operação da sua verdadeira singularização. O texto é muito curioso a este respeito. Narra como Ivan Illitch, transferido para S. Petersburgo, está entusiasmado com a decoração que ele próprio faz da sua casa, como ele a acha singular. Mas esta percepção da personagem não é corroborada pelo narrador, que evidencia que aquele tipo de decoração é idêntico ao de todas as casas das pessoas da mesma classe social. Na verdade, Ivan Illitch é como todos os Procuradores, é mais um na massa do estrato social a que pertence, com gostos e idiossincrasias idênticos.

São o sofrimento físico provocado pela dor e o sofrimento moral motivado pela impotência perante a morte que o confrontam com a sua singularidade e o mostram não como um mero elemento da espécie ou da casta social mas como ser singular e irrepetível. O texto narra longamente como a morte se vai insinuando no horizonte da existência de Ivan Illitch e como ela o leva a questionar a própria vida que, com tanto êxito, tinha levado até ali. Este questionamento das antigas assunções, as quais estavam de acordo com aquilo que era socialmente correcto, faz parte de processo de singularização e de individuação da personagem, o qual não teria sido possível sem o papel operador da morte.

O que o texto revela – a mim leitor que não quer saber do pensamento do autor – é o papel da morte como operador da nossa individualidade. A vida é um puro magma indiferenciado. É a morte que, ao operar sobre ela, ao trabalhá-la, ao exercer o seu papel de negação, vai extraindo desse magma indiferenciado um indivíduo, um ser singular e irrepetível. Não me torno indivíduo pela forma como vivo a vida, mas pela forma como a morte opera sobre mim, questionando-me, limitando-me e separando-me dessa pura indiferenciação a que chamamos vida.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer


O que surpreende na novela de Tolstoi, A Sonata de Kreutzer (geralmente, o título é A Sonata a Kreutzer), será menos o tema tratado - o ciúme - que a questão da confissão e as implicações que esta possui. Aparentemente, tudo gira em torno da vida de um casal que, desde muito cedo, descobre a tensão entre o prazer físico que proporcionavam um ao outro e a insuportabilidade da vida comum. Nesta tensão, o ciúme do homem tem um papel preponderante. A estratégia narrativa da novela assenta no relato da confissão, feita numa viagem de comboio, do protagonista ao narrador. Todo o relato é um exercício confessional, onde a alma torturada do que se confessa se exterioriza e se mostra numa tentativa para alcançar a verdade dos seus actos (desde as cenas de ciúme até ao assassinato da mulher).

Apesar de juridicamente absolvido (um crime de honra ainda permitido naqueles dias), o espírito do homem sente uma compulsão terrível para a exteriorização. A confissão não é, pelo menos em primeiro lugar, a busca de uma absolvição ou de uma compreensão de outrem. Ela é a objectivação da vida, o torná-la exterior para a poder captar na sua realidade objectiva. Confessar-se é projectar para fora de si aquilo que é do foro íntimo, trazê-lo para o espaço público, aliená-lo da vida interior, para o poder captar sossegadamente - não por acaso, o protagonista adormece após a confissão - e, no estranhamento assim conquistado, afastar de si uma parte de si.

O génio de Tolstoi evidencia-se, nesta novela, de múltiplas maneiras, desde a descrição das cenas de ciúme até à caracterização das personagens, passando pela exposição das concepções ideológico-sociais daquele que se confessa. O mais interessante, porém, é o jogo da confissão estar assente todo ele na não confissão. Na hora da morte, no momento em que o protagonista esperava a confissão da mulher, do reconhecimento que teria havido uma traição e que tudo aquilo não era apenas o fruto de uma imaginação exacerbada, ela não o faz. O segredo - mesmo que fosse o segredo de não haver qualquer segredo - não foi revelado, ficou fechado na vida íntima da mulher, e nem mesmo a iminência da morte a conduziu à necessidade de se exteriorizar num acto confessional.

Publicidade e intimidade confrontam-se, deste modo, na novela de Tolstoi, como modos eminentemente diferenciados de conviver consigo mesmo. A confissão é uma invenção masculina e responde a essa necessidade de publicar para suportar, e suportar porque compreende aquilo que agora se tornou público e estranho. A razão justifica, apaga e apazigua. Na mulher tudo é mais secreto, tudo fica fechado no coração. E isto apenas pelo motivo de que a verdade, a sua verdade, é irrevelável. Não porque a queira ocultar, mas porque não há maneira de a tornar pública. A verdade masculina é sempre confessável; a feminina é sempre secreta. Os homens até a vida íntima precisam de torná-la exterior. As mulheres, mesmo as mulheres públicas, só possuem vida interior.

Lev Tolstói (2007), A Sonata de Kreutzer. Lisboa: Relógio d'Água. Tradução de Filipe Guerra e Nina Guerra.