Podemos ler um livro de múltiplas maneiras. Uma delas é mobilizar
aquilo que se sabe da psicologia e dos traços ideológicos do autor para dar um
sentido à leitura, para legitimar essa leitura, dando-lhe uma certa tonalidade
verídica. Entre os múltiplos pecados que cobrem a minha alma está o de nunca me
interessar pela biografia dos autores. Quando leio as suas obras leio apenas as
suas obras e não quero saber da sua vida. Sou um leitor egoísta, pois procuro
numa obra aquilo que ela me faz pensar e não a projecção mimética de quem a
escreveu, até porque não acredito que a arte seja projecção mimética seja do
que e de quem for. Eu não quero encontrar o autor, quero descobrir-me a mim
através da provocação que uma obra me lança. Descobrir-me significa não tanto
construir a minha pretensa identidade – coisa que duvido que tenha – mas
destruir as construções ilusórios que faço dela.
Vladimir Nabukov, alguém com uma autoridade literária infinitamente
maior que a minha, diz que a A Morte
de Ivan Illitch trata "não da Morte de Ivan mas da Vida de
Ivan." E este dizer está escorado naquilo que Nabukov sabe ser o
pensamento de Tolstói, a preocupação deste com o destino do homem espiritual.
Diz Nabukov: «De acordo com Tolstói , o homem mortal, o homem
pessoal, o homem individual, o homem físico, vai pelo seu caminho físico
para o caixote do lixo da natureza; de acordo com Tolstói, o homem espiritual regressa
à região sem nuvens do amor divino universal, um lugar de felicidade neutra tão
caro aos místicos orientais.» Será assim, mas nada disso me ajuda a compreender
a novela em causa.
Qual o papel da morte em A Morte de Ivan Illitch? Obviamente que
a morte, através da sua delegada a doença, tem a função de ir destruindo o
corpo físico de Ivan Illitch. A minha leitura, porém, situa-se numa outra
perspectiva. A morte tem, na novela, a dupla função de separação e de
individuação. Quando ela surge no horizonte da existência de Ivan Illitch gera
um processo de separação com a realidade habitual, com a vida familiar, as
relações de amizade e os compromissos de trabalho. Esta separação que, num
processo relativamente longo e marcado pela agonia final, a morte opera não
significa uma etapa de indiferenciação e de dissolução dos limites do
indivíduo.
Pelo contrário, Tolstói, ao separar da vida habitual a morte (deveria
escrever a Morte), vai constituir Ivan Illitch num indivíduo. A morte é aquilo
a que os filósofos medievais – não se referindo a ela – chamam princípio
de individuação. O que se assiste, a partir do momento em que Ivan Illitch
suspeita que está condenado, é à operação da sua verdadeira singularização. O
texto é muito curioso a este respeito. Narra como Ivan Illitch, transferido
para S. Petersburgo, está entusiasmado com a decoração que ele próprio faz da
sua casa, como ele a acha singular. Mas esta percepção da personagem não é
corroborada pelo narrador, que evidencia que aquele tipo de decoração é
idêntico ao de todas as casas das pessoas da mesma classe social. Na verdade,
Ivan Illitch é como todos os Procuradores, é mais um na massa do estrato social
a que pertence, com gostos e idiossincrasias idênticos.
São o sofrimento físico provocado pela dor e o sofrimento moral
motivado pela impotência perante a morte que o confrontam com a sua
singularidade e o mostram não como um mero elemento da espécie ou da casta
social mas como ser singular e irrepetível. O texto narra longamente como a
morte se vai insinuando no horizonte da existência de Ivan Illitch e como ela o
leva a questionar a própria vida que, com tanto êxito, tinha levado até ali.
Este questionamento das antigas assunções, as quais estavam de acordo com
aquilo que era socialmente correcto, faz parte de processo de singularização e
de individuação da personagem, o qual não teria sido possível sem o papel operador
da morte.
O que o texto revela – a mim leitor que não quer saber do pensamento
do autor – é o papel da morte como operador da nossa individualidade. A vida é
um puro magma indiferenciado. É a morte que, ao operar sobre ela, ao
trabalhá-la, ao exercer o seu papel de negação, vai extraindo desse magma
indiferenciado um indivíduo, um ser singular e irrepetível. Não me torno
indivíduo pela forma como vivo a vida, mas pela forma como a morte opera sobre
mim, questionando-me, limitando-me e separando-me dessa pura indiferenciação a
que chamamos vida.
