Metáforas e Narrativas
Arquivo de leituras publicadas no blogue Kyrie Eleison sobre poesia e narrativa.
sábado, 8 de agosto de 2026
Knut Hamsun, Fome
domingo, 11 de janeiro de 2026
Layla Martínez, Caruncho
Publicado em Espanha em 2021 e em Portugal, pela Antígona,
em 2024, Caruncho (Carcoma) é o romance de estreia de Layla
Martínez. Sobre ele formaram-se de imediato alguns clichés, como o de o
classificar como romance gótico e o de associar o seu estilo ao realismo
mágico. É verdade que há, na obra, a presença do terror e o recurso a uma narrativa
que recorda Juan Rulfo. Contudo, classificar a obra na categoria de romance
gótico é uma forma de a arrumar num canto onde não possa perturbar os
espíritos. O terror que se surpreende não é uma criação imaginária, mas aquele
que está presente no quotidiano, fundamentalmente num quotidiano cujas
fundações são o terror da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e do regime que
dela nasceu e, também, o recalcamento que esse terror sofreu, na transição à
democracia, com o denominado Pacto de Silêncio, um acordo tácito entre os
partidos políticos espanhóis para que o país pudesse modernizar-se política,
social e economicamente. Quanto ao realismo mágico, ele está, de certo modo,
presente — a naturalidade do sobrenatural — mas, mais uma vez, o epíteto esconde
o que há de visceral e terrível no ressentimento social que a obra, como um
poderoso holofote, ilumina.
Uma característica central de Caruncho é o trabalho
sobre o ressentimento social, que manifesta um profundo conflito de classe,
numa Espanha do pós-guerra, entre as elites e as camadas populares. Esse
conflito é encenado numa aldeia sem nome. O rancor das duas protagonistas e
narradoras, uma avó e uma neta, também sem nome, dirige-se à família dos
Jarabos, senhores da aldeia, que surgem como agentes de uma opressão social e
económica, mas também existencial. Não é apenas a servidão que impõem, mas
também a capacidade de trazer a morte a quem os incomoda (os desaparecimentos
de pessoas — entre elas uma mulher, filha de uma das protagonistas e mãe da
outra — que são levadas a dar uma volta e nunca mais retornam), sem que isso
tenha consequências criminais. Este poder de terror dos Jarabos funciona como
uma forma de metonímia, ao tomar um exercício particular como uma parte desse
terror amplo, que foi o Terror Branco, exercido, após a Guerra Civil, pelos
nacionalistas vitoriosos, com um número assombroso, para um país católico, de
150 mil vítimas após o fim da guerra.
Particularmente interessante, neste exercício literário, é o
jogo das denominações. Funciona a dois níveis. Em primeiro lugar, como
reconhecimento social: avó e neta não têm nome, fazem parte de um mundo social
cuja invisibilidade se aprofundou com a vitória nacionalista na guerra e, de
seguida, com o regime do generalíssimo Franco. Os Jarabos são os vitoriosos, as
pessoas da situação. Eles são alguém naquele cosmos social. Por tudo isso, eles
têm nome. É uma modalidade de exprimir a luta de classes: os que têm um nome e
os que o não têm. Em segundo lugar, porém, a denominação tem um valor
invertido: serve para designar os culpados, aqueles que, após a transição à
democracia, deveriam ter sido punidos, mas que o não foram. Atribuir um nome é
um exercício que permite a identificação de quem é percebido como culpado. E,
se a punição não vem pela lei, ela virá por um ajuste secreto de contas. Onde a
lei não actua, emerge a vingança.
A memória é outro elemento central na narrativa de Layla
Martínez. É trabalhada a dois níveis. Por um lado, a memória histórico-social,
aquela que o Pacto de Silêncio quis recalcar. Ora, como se sabe desde Freud, o
recalcamento tende a manifestar-se, trazendo para a luz do dia, de modo
patológico, aquilo que se guarda no inconsciente. Ora, são essas patologias
que, em Espanha, como noutros países ocidentais, estão na base do crescimento
da extrema-direita e dos seus valores, que se pretende enfrentar, através da
rememoração das vítimas da repressão, num processo de anamnese dos
acontecimentos rasurados pela conveniência democrática. O segundo nível é o
intergeracional: a memória como herança. A memória traumática passa de avó para
neta. Não se trata apenas da memória do vivido individualmente, mas também
daquela que é vivida por transmissão familiar. Essa memória é internalizada por
aquela que não viveu os acontecimentos, mas que, de algum modo, fazem parte da
sua história. O romance mostra, de modo muito claro, que a memória do
ressentimento, do rancor, do mal sofrido tem um poder de transmissibilidade
muito mais profundo do que a memória dos acontecimentos felizes, que é
meramente pessoal.
Além de avó e neta, a casa da avó, onde ambas habitam, é
outra das protagonistas do romance. É nela que a avó comunica com o mundo
supranatural, onde mobiliza o poder de santos e santas para os seus ajustes de
contas com a vida; uma casa que, também ela, tem uma origem moralmente soturna,
fundada na exploração sexual de mulheres e símbolo de opressão do elemento
feminino pelo masculino. É concebida como um ser vivo, que tem os seus segredos
— pouco benévolos —, as suas recordações, o seu próprio sofrimento. Tem uma
espécie de vontade autónoma, como se possuísse racionalidade para gerir quem
vive nela e quem, por algum azar, cai dentro dela. Mais do que um espaço de
horror, é o lugar de vingança e de reparação, o espaço onde a justiça
retributiva funciona, desligada dos poderes do Estado e entregue ao confronto
entre classes e indivíduos.
Para além da personificação da casa, da subversão dos símbolos religiosos (a transformação de santos em agentes da vingança) e do anonimato das duas protagonistas, a autora recorre a um conjunto diversificado de estratégias narrativas. A mais importante, pelas suas consequências, é a existência de uma narrativa na primeira pessoa, mas de natureza dual. Avó e neta são ambas narradoras, existindo uma alternância de pontos de vista entre ambas. Para além do reforço do diálogo intergeracional, esta estratégia tem a função de tornar cada uma delas uma narradora pouco credível. E este é um dos elementos fundamentais do romance. Questiona a própria narrativa das protagonistas, as suas crenças e verdades. A sua pouca fiabilidade não elimina as causas do ressentimento e do rancor, mas torna-as um ponto de vista e não uma verdade universal. O que tem, do ponto de vista filosófico, uma consequência central: nos conflitos sociais, não há um ponto de vista universal, mas apenas perspectivas particulares, e cada um age em conformidade com elas. Uma afirmação clara de um relativismo que, sem um ponto de vista universal e objectivo, não abre caminho para o perdão e a reconciliação. Não há qualquer idealização dos debaixo nem diabolização dos de cima. Cada parte está muito longe de ser inocente, pois cada uma usa os poderes que possui para o exercício do mal, seja a dominação, seja a vingança. O relativismo é o que tranquiliza cada parte e justifica os seus actos.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
Branquinho da Fonseca, Porta de Minerva
Publicado em 1947, Porta de Minerva é o único romance
do escritor Branquinho da Fonseca. A obra inscreve-se nos parâmetros do
denominado segundo modernismo português, conhecido também como presencismo,
devido à importância, para o movimento, da revista Presença. As três
figuras centrais deste movimento são José Régio, João Gaspar Simões e o próprio
Branquinho da Fonseca. Esta contextualização fornece uma chave de leitura para Porta
de Minerva, um romance que, de certo modo, representa uma ruptura, em
Portugal, com o romance tradicional proveniente do romantismo, do realismo e do
naturalismo. Opõe-se, também de modo claro, ao neo-realismo que, na altura,
tinha um peso considerável nos meios literários. Se a obra pode ser exemplo de
um conflito estético-literário, esse conflito é, claramente, o que divide
presencistas e neo-realistas, fundamentalmente ao nível do sujeito da acção
narrada. Enquanto os neo-realistas privilegiavam um sujeito social, colectivo,
implicando uma visão politicamente comprometida da literatura, o romance de
Branquinho da Fonseca contém os traços característicos do movimento presencista:
individualismo, psicologismo e exploração da vida interior do eu.
A obra pode considerar-se um romance de formação (Bildungsroman),
ao acompanhar o percurso de Bernardo Cabral desde a sua chegada a Coimbra, para
cursar Direito, até à conclusão do curso. Esses anos de formação universitária
são, mais do que a preparação profissional de um futuro jurista, a formação da
própria subjectividade, que se afirma e conquista uma autonomia intelectual,
não apenas perante as posições daqueles com quem acamaradava na vida coimbrã,
mas também perante o próprio curso de Direito, onde descortinava não uma
preparação para a realização de um qualquer ideal de justiça, mas o exercício
retórico dos docentes, despido de qualquer capacidade de gerar emoção na
subjectividade dos alunos — ou, pelo menos, na do protagonista. Esta ausência
de emoção era a outra face da rigidez burocrática, tanto da Faculdade como da
própria instituição da Justiça. A formação conclui-se num processo de
libertação da própria vida académica, como sintetiza o parágrafo com que se
encerra o romance: «Mas Bernardo ia alheio às divagações do amigo. Atravessou o
jardim da Universidade; pela nobre Porta de Minerva, com o seu arco de pedra
coroado pela deusa antiga, desceu à rua estreita. E, como num regresso
simbólico à pureza primitiva, nu, debaixo da velha capa sacudida pelo vento,
sentia que era, enfim, um homem livre.»
O romance é marcado pelo conflito entre a subjectividade,
que se está a formar em direcção à liberdade, e a instituição, enquanto
representação de forças colectivas que, nela, se depuram e se tornam mais
perigosas para o indivíduo. Não são apenas as instituições Universidade,
Direito e Justiça que são visadas de modo crítico pelo protagonista. Também a
praxe académica, com o seu conjunto de humilhações, subserviências, hierarquias
irracionais e rituais de poder entre os estudantes, é objecto de um olhar crítico
e desconstrutivo. Não do ponto de vista de uma denúncia social ou política, mas
através da ironia e da atitude com que Bernardo Cabral enfrenta os praxistas,
tanto no plano físico como no ideológico. A praxe é pressentida como inimiga de
uma subjectividade que, na sua individualidade, se quer livre. É a negação da
individualidade e a humilhação da subjectividade; é a afirmação do poder da
massa sobre a pessoa. Se há um tema que torna Porta de Minerva, ainda
hoje, uma obra que merece ser lida, é precisamente o da praxe académica e o
conflito entre ela e a autonomia da pessoa.
É também no âmbito da formação da subjectividade que emerge
a relação de Bernardo Cabral com as mulheres. De certo modo, cada uma delas
representa um arquétipo e, ao mesmo tempo, uma ameaça. Elizabeth, idealização
da estrangeira; Kate, a sensualidade madura; Maria Teresa, a amiga de infância
e a possível mulher, na expectativa familiar; e Palmira, a tricana, amante do
seu amigo, mas que se lhe oferece. Todas elas representam oportunidades — mais
eróticas ou mais sociais —, mas que arrastam perigo: pôr em causa a lealdade
devida a um amigo ou conduzir a situações sociais susceptíveis de fazer perigar
a liberdade que Bernardo pretende conquistar com a saída pela Porta de Minerva.
Aqui, o período de formação não se resolve com uma decisão no campo amoroso, mas
pela abertura de possibilidades que o romance deliberadamente não fecha.
É plausível pensar que a obra, no contexto social e cultural
português dos anos quarenta do século passado, tenha parecido, apesar de os
grandes romances modernistas europeus já serem coisa do passado, um romance
menor — não pela sua temática, mas pela construção narrativa. Não existe aquilo
a que se chama plot; não há uma intriga. A obra parece ser composta por
fragmentos ou quadros da vida de Bernardo Cabral, os quais não obedecem à
estrutura tradicional do romance. Contudo, é precisamente essa fragmentação da
narrativa, essa aparência de uma colecção de episódios descosidos entre si, que
torna, do ponto de vista formal, a obra interessante. O romance é um exercício
da memória. Do ponto de vista do narrador, constitui uma extensa analepse da
sua experiência em Coimbra e na vida académica. A memória é fragmentária, tal
como a corrente de consciência e as próprias auto-análises.
Uma das leituras feitas sustenta que Branquinho da Fonseca
é, fundamentalmente, um contista, e que o romance Porta de Minerva não
consegue libertar-se dessa idiossincrasia do autor. No fundo, não passaria de
um conjunto de contos, com a característica de terem todos o mesmo protagonista
e de se situarem no mesmo universo social. Esta avaliação, porém, não tem em
consideração que o modo como a narrativa lida com a temporalidade é plural, e
que a linearidade e a existência de uma intriga não são condições necessárias
para a existência da obra romanesca. A experiência vivida — um dos temas
centrais do presencismo —, filtrada pela subjectividade fragmentária da
memória, é mais importante do que a imposição de um esquema narrativo
construído a priori.
A Porta de Minerva não é, assim, apenas a porta por
onde se entra num processo de formação pessoal e por onde se sai para a
liberdade dos projectos individuais, ancorados no juízo de uma subjectividade
que se foi tornando lúcida; é também a porta por onde se entra em modos
narrativos menos marcados pela instituição literária e pela tradição dessa
instituição. O talento de Branquinho da Fonseca reside nessa capacidade de
sintetizar uma opção estética e uma visão existencial, o que, paradoxalmente,
unifica o romance, recontextualizando os fragmentos no âmbito de um projecto
estético-literário que emerge, desse modo, como uma totalidade — não a
totalidade tradicional da narrativa, mas uma nova totalidade, em que a opção
estética e a visão existencial, ancoradas numa longa anamnese, se tornam um
todo que interpela o leitor.
domingo, 20 de julho de 2025
Joseph Roth, A Teia de Aranha (Das Spinnennetz)
Não se pense, todavia, que o interesse do romance reside nas
suas implicações políticas. Estas são um meio para atingir um fim: a análise do
papel do ressentimento na subjectividade moderna. A obra é uma exploração da
consciência de Theodor Lohse, um tenente desmobilizado do exército alemão, a
análise da tensão entre os desejos que acalenta e a realidade que é a sua. O
espaço que existe entre ambos é o solo onde o ressentimento vai crescer. A
limitação que o caracteriza não lhe permite confrontar-se consigo mesmo,
perceber quais são, no âmbito de uma moralidade saudável, as suas forças e as
suas possibilidades. É ela – a limitação – que o conduz a odiar os judeus, os
socialistas, os movimentos operários. São, para Theodor Lohse, os culpados da
sua situação. O outro não o interpela no sentido do respeito, mas é aquele que o
impede de ser aquilo que deseja ser. O ressentimento nasce, assim, para
utilizar uma expressão do campo da psicanálise, de uma ferida narcísica.
Esse narcisismo dilacerado, turbilhonado pelo ressentimento,
transforma-se num duplo egoísmo: o pessoal e o nacional. O protagonista
principal é um nacionalista, pois a sua ferida narcísica é também a de uma
Alemanha ressentida, derrotada na Grande Guerra de 1914-1918, submetida ao jugo
do Tratado de Versalhes pelas potências vitoriosas. O romance permite perceber
que o nacionalismo é um narcisismo colectivo. Imerso nesse ambiente, Lohse, na
ânsia de encontrar uma autonomia – isto é, poder e dinheiro –, põe em acção todas
as características que marcam o jovem europeu de então. Não apenas o egoísmo e
o nacionalismo, mas também a falta de fé, a ausência de lealdades e a sede de
sangue. Para subir, não hesita em assassinar os que estão acima de si na
hierarquia. O ressentimento é o combustível para as maiores degradações morais.
O título A Teia de Aranha (Das Spinnennetz) é
uma imagem tanto da situação em que a Alemanha vivia durante a República de
Weimar, como das pretensões do protagonista. A derrota alemã e o fim da
Monarquia tinham atirado o país para uma enorme teia de contradições, de
interesses, de agitações políticas, de frustrações sociais, onde elites
corruptas vicejavam e tentavam controlar, em seu favor, a situação. Também o
protagonista se imaginava a aranha que tece a sua teia, onde os incautos vão
caindo, enquanto ele se fortalece ao devorá-los. No entanto, a sua limitação
não lhe permite perceber que ele próprio é uma mosca em teias que outros tecem,
como o espião judeu Benjamin Lenz e a própria mulher Elsa von Schlieffen. Lenz
é um niilista e odeia tudo: a Europa, o Cristianismo, os judeus, os monarquias,
as repúblicas, a Filosofia, os partidos, os ideais, as nações. É superiormente
dotado e manipula tudo e todos. Espia para Lohse, espia para os comunistas,
espia para a polícia. O dinheiro que ganha com isso nem é para ele, envia-o
para a família. O seu prazer é, parecendo irrelevante, ser o manobrado central.
É ele que promove Theodor Lohse, que lhe apresenta as pessoas certas, que o faz
ter o nome nos jornais, que lhe apresenta a mulher, uma jovem aristocrata já
sem dinheiro, mas com ambições e saber manipulatório suficiente para, obedecendo
em aparência ao carácter autoritário do marido, o conduzir na ascensão social e
política.
Beneficiando, da sua experiência de jornalista de grande
talento, Joseph Roth retrata, com profundidade, a situação social da Alemanha.
Fá-lo, adoptando as orientações estéticas da nova objectividade que
tinha surgido em conflito com o expressionismo, como superação de uma visão
hiperbólica da dimensão sentimental. Theodor Lohse, Benjamin Lenz e Elsa von
Schlieffen são, ao mesmo tempo, personagens credíveis na sua singularidade e
arquétipos ideais. Theodor Lohse encarna o autoritário protofascista. Benjamin
Lenz, o judeu desenraizado. Elsa von Schlieffen, a aristocrata derrotada pelo
empobrecimento da família e o fim da Monarquia, mas ambiciosa por retornar ao
centro do poder. Se há, porém, um traço que os une é o niilismo. Este
alimenta-se de uma enorme gama de inclinações: o ressentimento, o narcisismo, a
ambição, o desejo de manipular, a vontade de poder. E é isso que Roth mostra,
não sem uma funda ironia narrativa, numa Berlim à deriva, num mundo onde ordem
e desordem se confundem.
segunda-feira, 28 de abril de 2025
Marlen Haushofer, A Parede
Um dos testes que o romance faz está relacionado com a
natureza social do homem. Somos seres em relação, diz-se. O romance questiona:
e se ficarmos isolados? Se toda a sociabilidade humana desaparecer porque sou
apenas um? A parede é uma metáfora para pensar o processo de
hiperindividualização por que passava já, nos anos sessenta do século passado,
a sociedade ocidental. Essa hiperindividualização significa, na prática, um
corte com os outros, mesmo que com eles se conviva socialmente ou até na vida
amorosa. O indivíduo, na sua afirmação radical, transporta a parede que o isola
de todos os outros, os quais deixam de ter para ele uma existência real. O
romance hiperboliza a experiência social de isolamento e torna visível aquilo
que o hábito e a vida quotidiana ocultam. A estranha parede que separa a
protagonista é o símbolo da parede que torna estranhos, para cada um de nós,
qualquer outro ser humano.
A alteração no espaço, a limitação da liberdade de ir para
além da parede, devolve, paradoxalmente, à protagonista uma liberdade radical.
Toda a convenção social, toda a regra moral, toda a lei jurídica, tudo o que
resulta do processo de regulação social, cuja finalidade é limitar as
liberdades individuais naquilo que têm de danoso para os outros, desapareceu.
Apenas a lei da natureza a limita. Essa experiência de uma liberdade absoluta
tem o condão de, ao ver-se livre das regras sociais, a colocar perante os seus
limites animais. Ela precisa de sobreviver, de organizar a vida não para e com
os outros, mas para si e apenas consigo. Quando se elimina a convenção – que
diminui e, por vezes, sufoca a nossa liberdade – o que descobrimos é a pura
necessidade. Ela vai ter de aprender a trabalhar a terra, de cuidar da vaca que
encontrou, do cão que herdou ou da gata que, na sua independência, usa a sua
hospitalidade. O efeito paradoxal do romance é mostrar, sem nunca o afirmar,
que a liberdade só existe em sociedade – nessa mesmo que nos coage e nos
limita; fora dela, só encontramos a necessidade animal.
Se no romance o espaço se limitou, o tempo sofreu uma
metamorfose. Ficar naquela situação e ter de sobreviver significa sair do tempo
histórico e entrar num tempo cíclico, o tempo da natureza. O tempo histórico é
linear: uma linha que vem do passado em direcção ao futuro, que é preenchida
pelos acontecimentos da vida social da humanidade. É essa linearidade que
conduz, por necessidade da própria razão humana, a colocar nesse passado um
tempo mítico originário e, no futuro, uma qualquer ideia de fim da história.
Tudo isso é agora evacuado pelos ritmos da natureza, com as suas épocas de
sementeiras e de colheitas, com a sua dinâmica de um eterno retorno das mesmas
tarefas. Não há história sem comunidade humana, sem o trágico da acção, sem a
disputa interminável entre homens e comunidades.
Esta saída da história e a perda de sentido do calendário
põem à protagonista um problema de referenciação temporal. Como se orientará,
nesse seu novo mundo, no tempo? Há uma dupla estratégia de referenciação. A
primeira é a da já referida ciclicidade da natureza, com os trabalhos
necessários para assegurar a sobrevivência, segundo o ritmo das estações. A
segunda é a escrita do diário como modalidade de consolidação da memória e de
referenciação temporal. O romance é o diário da protagonista, o registo da sua
existência enquanto exemplar único de uma espécie que parece ter-se extinguido.
Pode pensar-se, na interpretação do romance, a escrita do diário de dois pontos
de vista. Por um lado, como um acto de resistência ao desaparecimento da
humanidade. Por outro, como o registo dos momentos finais dessa mesma
humanidade. O mais plausível é pensar essa escrita dirigida a si mesma como um
acto de resistência e um registo de apagamento, uma espécie de objecto que se
poderá tornar um monumento, embora não exista ninguém para o ler. Um guia na
temporalidade até à hora em que já não haverá qualquer ser que tenha
consciência dessa temporalidade.
Mais do que o desaparecimento da sociabilidade humana e o
confronto com a necessidade estrita da sobrevivência, numa situação em que os
processos de cooperação desapareceram, o romance acaba por reforçar – na
experiência do isolamento mais radical – a natureza social dos seres humanos. A
protagonista cria uma comunidade com os animais à sua volta. O cão Lince, a
vaca Bella, com o seu filho, a gata e as suas ninhadas. A comunidade – o viver
com os outros – revela-se assim como inescapável. Desaparecidos os seres
humanos, há que encontrar uma nova comunidade, para que a vida continue a ser
possível. E é aqui que se revela uma das ideias centrais do livro. Essa
comunidade assenta não na utilidade, mas no cuidado. A protagonista cuida dos
seus animais não porque lhe sejam úteis, mas para os proteger. Isto permite
repensar todo o romance como uma metáfora sobre a necessidade de substituir,
nas relações humanas, o ethos da relação utilitária, que isola e
coisifica as pessoas, por um ethos do cuidado, por um dever de
atenção ao outro, mesmo que esse outro não tenha o rosto que esperamos.
segunda-feira, 14 de abril de 2025
Knut Hamsun, Victoria
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
Guedes de Amorim, Morfina
Publicado em 1932, o romance Morfina,
de António Guedes de Amorim, é uma incursão naturalista para
exploração de uma patologia social, a dependência de drogas, emergente não em
situações sociais degradas das classes populares, mas no mundo artístico. A
estratégia narrativa, ao manifestar um conjunto de valores morais negativos,
acaba por sublinhar, como contraposição, um outro conjunto de valores que estão
em processo de consolidação, depois dos loucos anos vinte e do fim da primeiro
República, com a chegada ao poder da coligação de forças conservadoras e
reaccionárias que suportam Oliveira Salazar. O que a narrativa põe em jogo é a
oposição do vício e da virtude, sendo o primeiro a emanação das opções
individuais e a segunda uma força proveniente da família tradicional e
provinciana, com os seus laços de solidariedade e de protecção aos seus membros.
O romance centra-se num talentoso
pintor, Pedro António, que troca a tradição familiar por uma aventura no campo
das artes e da vida lisboeta. Esse talento, reconhecido e apreciado, gera,
porém, um conjunto de forças antagónicas que o vão tentar. É em primeiro lugar
um romance que explora dois temas centrais da cultura judaico-cristã, os da
tentação e da queda. A tentação, tal como na narrativa bíblica, surge através
de uma Eva, neste caso de uma francesa, Jeanette Holbach, em aparência mulher,
mas na verdade filha de Hugo Holbach, um homem de negócios que parece
interessar-se pelos quadros do pintor. Contudo, Holbach é um negociante de drogas
e a filha uma angariadora de clientes.
É a tentação erótica representada
por Jeanette que conduz o pintor a descurar o casamento com Maria Laurinda,
também ela pintora, embora sofrível, cujo talento maior foi conduzir a sedução
de Pedro António até ao casamento. Jeannette estabelece uma relação equívoca
com o pintor. Atrai-o, mas não cede perante o seu desejo. Pelo contrário, conduz
esse desejo para a experiência da morfina e, como consequência, para
dependência da droga, de acordo com os interesses de Hugo Holbach. O meio
artístico é assim tratado como um lugar de promiscuidade, uma vida de boémia,
de cabarets, de álcool e de
drogas, um mundo vicioso, onde a tentação conduz rapidamente à queda.
É também um lugar de rivalidades,
de pequenas e grandes traições, lugar onde impera o ressentimento e a inveja.
Pedro António tem por amigo um outro pintor, Fausto. Contudo, este não passa de
um pintor fracassado, em busca de um reconhecimento que nunca chega. A amizade
que manifesta encobre um rancor profundo pelo talento e sucesso do seu
presumido amigo. Não apenas cultiva uma atitude de desdém pelas costas, como,
aproveitando o estado de degradação daquele, se envolve com a mulher, a
negligenciada e esquecida Maria Laurinda. De certa forma, Guedes de Amorim
retrata o ambiente artístico de Lisboa como uma antecâmara do Inferno, de Dante.
A queda de Pedro António
inicia-se não propriamente com o encontro com a bela e sedutora traficante de
drogas, mas antes, ao viver num mundo de fácil sedução erótica. É nessa
amoralidade sexual que se vai inscrever a dependência das drogas. A morfina é
um corolário de uma vida já moralmente viciosa. E é por isso que ele é
inexoravelmente arrastado para uma queda que parece não ter fim. Todo o mundo
que envolve o artista é vicioso e as personagens são todas elas corruptas do
ponto de vista moral. Os amigos, a mulher, as amantes, os conhecidos. O que a
narrativa pretende mostrar é que o mundo retratado tem um efeito sobre aqueles
que o compõem. E esse efeito é a negação do livre-arbítrio e a submissão das
personagens – em primeiro lugar, a de Pedro António – a um feroz determinismo.
O efeito da viciosidade moral é a substituição da liberdade pela determinação.
A pessoa deixa de ser senhora dos seus actos, que resultam já não de escolhas
livres, mas de cadeias causais de tal modo poderosas que o culpado, por uma
escolha original de entrar naquele mundo, se torna vítima inexorável delas.
É essa lógica determinista, própria do naturalismo, que elimina o terceiro elemento da trilogia judaico-cristã. Esta supõe que, após a tentação e a queda, exista a redenção. Ora, Guedes de Amorim ainda prefigura, na pessoa de Carlos, o irmão de Pedro, o homem de família e do trabalho, a possibilidade de uma redenção, quando ele tenta socorrê-lo e desviá-lo do mundo em que caiu. Contudo, a virtude e a sensatez do irmão chegam demasiado tarde, para tornar possível essa redenção. A lógica do determinismo social era suficientemente forte para evitar que a degradação do pintor tivesse uma reviravolta. Na verdade, a impossibilidade de redenção estava já sugerida nas primeiras linhas do romance: Uma enorme população de noctívagos, formando ruidosa feira cosmopolita, inundava o salão do luxuoso cabaret, ocupando todas as mesas. Vivia-se, com música, champagne e gargalhadas, mais uma noite de festa dos sentidos. E, pela numerosa frequência, os mais acostumados ao ambiente, podiam afirmar, cronometricamente, que eram três horas da manhã. A máquina, esse símbolo supremo do determinismo, estava em movimento desde o início.






